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A cidade e o território, como construções colectivas, são a primeira arena de conflito, entendido enquanto acção de forças de sentidos opostos que se traduz em dissenso. Esta condição, implícita à pluralidade do espaço democrático, dá forma à produção da arquitectura.

In Conflict responde directamente à pergunta How will we live together? – lançada por Hashim Sarkis, curador da Biennale Architettura 2020 –, aprendendo com processos, caracterizados pelo conflito, que questionam a problemática do habitar nas suas dimensões física e social.

A resiliência e a reflexão pública transformam estes processos vivos (ainda sob agitação) em aprendizagem, sublinhando a acção e poder políticos da arquitectura. Relembrando o relato de Portugal ensaiado no filme Non, ou a Vã Glória de Mandar por Manoel de Oliveira, propõe-se assim uma visão construída a partir de um conjunto de lutas, ainda por superar.


O Pavilhão de Portugal desafia o público através de dois momentos complementares – exposição e debate.

A exposição, presente no Palazzo Giustinian Lolin em Veneza, dá notícia da arquitectura portuguesa do arco temporal da democracia a partir de sete processos marcados por destruição material, deslocação social ou participação popular. Todos eles têm um lastro mediático amplificado pela imprensa – compreendida como barómetro da acção e do envolvimento públicos.

Estes processos são testemunhos de uma democracia que começou com um Portugal empobrecido, a braços com falências habitacionais profundas e agravadas pela urgência demográfica da descolonização. Hoje, passadas mais de quatro décadas em democracia, a realidade é ainda frágil, pautada pela persistência de bairros informais, por um crescimento especulado dos grandes centros urbanos e pela desertificação do interior do país.

A partir destes sete casos, chamam-se à discussão outros projectos com afinidades quanto à problemática, escala ou modos de acção, construindo-se um panorama alargado e transversal dos primeiros 45 anos de democracia nacional através do seu reflexo na arquitectura portuguesa.

In Conflict procura, através da exposição e dos debates, pensar o papel da arquitectura enquanto disciplina artística, pública, política e ética. Na impossibilidade de resolver todas as contingências, importa hoje pensar como criar lugares onde todos tenham lugar à mesa, na expectativa de cumprir o projecto de um futuro em comum.